Irã: “Cortaram a internet para poder matar”, relatam moradores
Reprodução/X

Com a internet fora do ar por dias, iranianos afirmam que a repressão se intensificou e que o bloqueio dificulta a divulgação de denúncias e informações sobre os protestos.

Em meio ao corte de internet no Irã, moradores e testemunhas relatam que a repressão do regime se tornou mais dura nas últimas semanas, enquanto o país vive um apagão de informações. Na passagem de fronteira de Kapiköy, entre Irã e Turquia, pessoas que deixaram o território iraniano dizem que o bloqueio digital teria sido usado para reduzir a circulação de vídeos e relatos e, assim, ampliar o controle sobre as manifestações.

Segundo entrevistados, o cenário nas ruas passou a ser de forte presença de forças de segurança e patrulhamento em pontos estratégicos, com uma “calma frágil” após semanas de protestos. Embora ligações e serviços de mensagens tenham voltado a funcionar, o acesso à internet permaneceu instável, com relatos de restabelecimento temporário seguido de novos bloqueios, conforme apontou a organização NetBlocks.

O impacto do apagão também aparece na vida prática. Com voos cancelados e o ambiente de incerteza, parte da população busca sair do país para conseguir contato com familiares no exterior ou simplesmente se afastar do clima de tensão. Na fronteira, também circulam comerciantes e trabalhadores informais, em um retrato de dificuldades econômicas agravadas por alta de preços e desvalorização da moeda, fatores que ajudaram a impulsionar as mobilizações.

Uma moradora de Teerã, identificada com nome alterado por segurança, contou que a queda da conexão teria sido um ponto de virada. Para ela, o bloqueio serviria para permitir ações mais violentas sem exposição imediata. Outros entrevistados afirmaram que, desta vez, a repressão estaria em um nível diferente de ondas anteriores de protestos, e dizem conhecer vítimas diretamente, o que amplia a sensação de medo e revolta.

Prisões, mortes e versões em disputa

As autoridades iranianas reconheceram milhares de prisões. Organizações de direitos humanos, por outro lado, alegam números maiores e relatam mortes em escala significativa, sem confirmação independente ampla devido ao bloqueio de comunicação e à dificuldade de verificação no território.

O governo sustenta que houve mortes, mas atribui parte delas a ataques e ações de “terroristas” e vândalos, além de afirmar que os protestos teriam interferência externa. Já manifestantes e moradores ouvidos rejeitam essa narrativa e dizem que se trata de mobilização interna, motivada por insatisfação política e social.

Entre os relatos reunidos, o sentimento mais repetido é o de perda de legitimidade do regime e frustração com a falta de resposta internacional efetiva, ao mesmo tempo em que muitos afirmam não enxergar uma saída rápida para a crise.

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