Bolsonaro bate continência a Sarney, que se reunirá com Lula

Quem presidiu a redemocratização do país atua para garanti-la

O presidente Jair Bolsonaro disse que a CPI da Covid-19 foi instalada no Senado com o propósito de fazer política contra ele. A malta ao seu redor, que ecoa tudo o que mandatário diz, limitou-se a repetir. Mas quando o chefe do Executivo nacional vai à casa do ex-presidente José Sarney no Lago Sul, em Brasília, bate continência à chegada e à saída, o que Bolsonaro faz? Política a seu favor, ora. Política.

No caso, política na tentativa de convencer Sarney a chamar o senador Renan Calheiros (AL), seu companheiro do MDB e relator da CPI, e aconselhá-lo a não pesar a mão quando examinar denúncias de que o governo deu passe livre ao vírus para que matasse os brasileiros mais vulneráveis e infectasse quem quisesse. Política de um lado, política do outro.
A Operação Lava Jato, até certo ponto de triste memória, demonizou a política ao expor as relações corruptas entre políticos, donos de empresas e funcionários públicos. Infelizmente, a corrupção é inerente ao ser humano que tenta extrair vantagem de tudo e que sonha em ficar rico. Ela está em toda parte, e deve ser combatida com todos os meios legítimos possíveis.

Bolsonaro trombeteia que sempre passou longe da corrupção, que montou um governo impermeável à corrupção e que tem simplesmente horror a ela. Conversa-fiada! Empregar funcionários fantasmas e subtrair-lhe parte do salário é o quê? Chamar tal prática de rachadinha sugere um crime menor, tolerável, mas não deixa de ser um crime. Outros assombram a família Bolsonaro.

A CPI da Covid foi criada para investigar a má conduta do governo Bolsonaro durante a pandemia. Será a “CPI do óbvio”, assim batizada com acerto pelo jornal O Estado de S. Paulo. Está tudo à mostra de quem quiser ver. O próprio governo, com o intuito de defender-se, escreveu o roteiro da CPI que será seguido por ela. Chovem ofertas espontâneas de documentos à CPI.

Imaginar que ela possa funcionar sem que a oposição e o governo, cada um à sua maneira, tire proveito político, seria ingenuidade, desfaçatez, ou ignorância. Seria como imaginar que Bolsonaro – ou qualquer outro presidente – fosse capaz de governar com total isenção, beneficiando aliados e adversários, movido apenas por um alto senso de justiça, sem se preocupar com o próprio futuro.

Possibilidade remota

Pelo que Sarney pensa e escreve com regularidade, parece remota a possibilidade de que ele faça o que Bolsonaro quer. Não espere que Sarney, um dia, revele o que ouviu do presidente aflito que o visitou. Jamais o fará, nem para os íntimos. Não é do seu feitio. Sarney é um político à moda antiga, que sabe guardar segredos, respeita a liturgia do cargo e cumpre a palavra empenhada.

De resto, o MDB, embora detenha posições no governo, está mais para juntar-se em breve a outros partidos que se opõem a Bolsonaro do que a ele. O ex-presidente Michel Temer aproximou-se de Bolsonaro e deu-lhe conselhos que jamais foram seguidos de fato. À falta de um nome que surja como alternativa a Bolsonaro e a Lula na eleição do ano que vem, o MDB irá com Lula.

O candidato do PT está sendo aguardado em Brasília na noite desta segunda (3/5). Entre terça (4) e quinta-feira (5), se reunirá com muita gente, inclusive embaixadores. Sua agenda é mantida em sigilo. Mas sabe-se que visitará Sarney na sua casa. Não lhe baterá continência. O natural seria que o abraçasse como amigos que são. Mas o vírus não permitirá, embora os dois já tenham sido vacinados.

Sarney e Lula estão imunes ao autoritarismo desde que a ditadura de 64 deu sinais de esgotamento. Lula a desafiou como líder sindical metalúrgico que dizia à época detestar os políticos. Sarney, ao juntar-se a Ulysses Guimarães e Tancredo Neves para construir o que passou à história como a Nova República. Tancredo morreu sem tomar posse. Sarney garantiu a transição para a democracia.

Foto: WILSON PEDROSA/AE

(Metrópoles)

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