Aquele de Belém ou o de Brasília? Qual é o seu Messias?

Por Luiz Carlos da Cruz, jornalista, cristão convicto, pecador declarado e ser humano que precisa aperfeiçoar seu caráter diariamente

A pandemia do novo coronovírus (Covid-19) trouxe apreensão ao mundo e nos revelou facetas interessantes do evangelho, que deveria ter como único foco Cristo, nosso Redentor. Em muitas cidades, inclusive em Cascavel, as autoridades sanitárias adotaram, como medida temporária, o fechamento de igrejas para evitar a proliferação do vírus. Pode parecer declaração incoerente para um cristão o que vou dizer em caixa alta, mas… EU LOUVO A DEUS PELO FECHAMENTO TEMPORÁRIO DOS TEMPLOS!

Com os templos fechados, muitos pastores passaram a utilizar uma ferramenta extremamente necessária para levar o Evangelho de Cristo: as redes sociais. É claro que a maioria das igrejas adotou essa prática há muito tempo, mas muitos ainda não faziam as tradicionais “lives” das celebrações. Com mais igrejas utilizando essa ferramenta, mais fortemente nosso Jesus Cristo é anunciado.

As transmissões ao vivo, no entanto, também revelaram algo que já era perceptível nas redes sociais. Muitos líderes evangélicos deixaram de pregar, em seus púlpitos, o Messias de Belém para louvar a outro Messias, o de Brasília. Ou pelo menos estão pregando a ambos. As “lives” deixaram isso bem visível.

Alguns pastores fazem, nos púlpitos, acreditem, uma defesa ferrenha do presidente Jair Messias Bolsonaro a ponto de constranger alguns fieis. É bem verdade que a maioria desses fieis compactuam com a pregação do pastor. Bolsonaro é o nosso presidente – daqueles que o elegeram e também dos que não votaram nele – e temos o dever, como cristãos, de orar por ele, mas a liderança da igreja brasileira precisa entender que ele não é o Messias e não deve ser apresentado como o salvador (da Pátria).

Alguns líderes evangélicos fomentam, inclusive, a divisão entre esquerda e direita. Quem professa a fé cristã sabe que boa parte das bandeiras defendidas pelos partidos de esquerda se choca com o cristianismo, são posicionamentos anticristãos e não devemos compactuar. Se temos a liberdade e fazemos questão de condenar essas defesas anticristãs da esquerda, não podemos fechar os olhos para o que vem acontecendo e, pasmem, muitas vezes em nome de Deus, com a outra facção ideológica.

Fiquei assustado quando vi um grande líder evangélico do Brasil defendendo os palavrões do presidente, expostos no vídeo da famigerada reunião ministerial que se tornou pública e revelou a interferência na Polícia Federal. Outro líder religioso, que também é parlamentar, saiu em defesa das fake news espalhadas por grupos extremistas virtuais. Será que ele sabe quem é o pai das fake news? Aliás, já vi o mesmo líder espalhar notícias mentirosas, aquelas que agradam seus seguidores que compactuam com suas ideias.

Confesso que estou preocupado com as consequências dessa união Estado/Igreja em nome do Evangelho. Na semana passada, um grupo de pastores midiáticos esteve no Palácio do Planalto para orar pelo presidente. Ótimo, temos que fazer isso, e essas pessoas que têm acesso aos gabinetes do poder em Brasília, precisam ir até lá para orar. Não é errado! Só que, é claro, para eles o “clamor” precisava ter visibilidade e aí entram as famosas “lives” da oração. Creio que teria bem mais resultados se fosse feito em secreto dentro do gabinete presidencial. O que me deixou estarrecido é que um desses líderes sugeriu que Deus estava do lado daqueles que vestem verde e amarelo, numa alusão aos apoiadores do presidente. Será?

Consequências

Parece-me que essa aproximação da igreja evangélica com o Estado está provocando sérios danos nos fiéis, principalmente naqueles que ainda engatinham na fé cristã. Diariamente tenho recebido mensagens de irmãos que, muitas vezes, nem tenho uma ligação próxima, que me procuram para expressar seu incômodo com a situação política nos templos. Alguns até mudaram de igreja, outros chegam a crer que estão em pecado por discordarem do posicionamento político do pastor. Chegamos a um nível preocupante! Pastores que deveriam promover a paz (bem-aventurado os pacificadores porque eles serão chamados filhos de Deus) estão promovendo divisões por questões políticas. “Um reino dividido não subsiste” disse, certa vez, o maior Homem que passou por essa terra desde sua fundação. Na semana passada exclamei “misericórdia!” quando li a postagem política de apoio ao presidente Bolsonaro, feita por um pastor que sempre considerei equilibrado e coerente. A frase de apoio, na verdade, nem foi o problema, mas a observação que ele fez após tecer o comentário. “Quem não gostar da postagem, só deixar de seguir”. Será que isso agrega ao Evangelho? Será que isso atrairia aquela pessoa que está buscando um relacionamento com Deus e tentando se inspirar em líderes?

Por outro lado, também tenho sido procurado por vários pastores de diferentes cidades que estão se sentindo incomodados com a postura da igreja, como instituição, no atual momento. Somente hoje, dia 9 de junho, fui procurado por dois pastores que expressaram essa preocupação. Um exército de líderes está se levantando para interceder pela nossa nação e pelas autoridades constituídas, mas sem holofotes e sem defesa intransigente de posturas indefensáveis como acontece atualmente com lideranças da igreja que fazem de conta que não estão vendo certas coisas acontecerem.

Precisamos orar mais pelo nosso Brasil, pelo presidente e todas as autoridades, isso é dever de todo o cristão. Nosso reino não é deste mundo e o nosso Deus não é aquele que está exposto em um slogan de governo ou “louvado” em cédulas de Real. Os governos passam, mas o nosso Senhor é o mesmo ontem, hoje e eternamente. Maranata!

 

 

 

Relacionadas

Leave a Comment