Antíteses, antas e preconceitos

Rosi Czepula Meassi

Sai ano, entra ano e os noticiários não param de falar sobre as altas dos impostos, sobre o aumento dos preços das mensalidades escolares, do combustível, dos alimentos, sobre o aumento da carga nos ombros dos professores e sobre o crescente aumento da corrupção que, cada vez mais, envergonha os brasileiros do bem. Noticiam também que o desmatamento não para de avançar na Amazônia e em todo lugar, fazendo crescer aos saltos o desequilíbrio ambiental do planeta. Falam também dos picos da pressão arterial da população, da insônia, da depressão e da ansiedade. Quadros que provavelmente são agravados em consequência de todos os outros aumentos. E esse gráfico não para de crescer.

Mas, no meio desse mundo de altas, tem a contrapartida. De algum tempo pra cá, como num piscar de olhos, tudo diminuiu. Até o mundo ficou menor. Hoje, os meios de comunicação nos trazem, em tempo real, notícias de qualquer lugar. E se eu quiser falar com a minha amiga Josi que mora na Eslováquia, por exemplo, basta chamá-la através das redes sociais e pronto. Nós podemos conversar de pertinho, apesar da distância geográfica. Os nossos maravilhosos meios de comunicação também têm o poder de deixar até as mais longas distâncias bem curtinhas. Pequenas também são as mensagens que transitam pelas redes sociais. Quase sempre são palavras cortadas; palavras abreviadas; neologismos ou palavra nenhuma, apenas uma foto ou um símbolo. As famílias contemporâneas também diminuíram bastante, se comparadas às dos nossos ascendentes, cujas mães tinham uma verdadeira e imensa escadinha de filhos. Assim como a barra dos shorts femininos e as gengivas da terceira idade, o que também não para de encolher é a tolerância de um modo geral. Arrisco até em dizer que essa prática, no convívio das pessoas, está tão pequena que beira a extinção.

Menores ainda que tudo isso, são essas denominações: Fa, Fer, Jé, Du, Ma, etc, que nada mais são que apelidos de familiares e de amigos próximos, com os quais já estamos acostumados e nem paramos pra pensar que na verdade são nomes condensados ou reduzidos em apenas uma sílaba. Por um lado, parece estranho. Mas por outro, esse nome pequenininho dá uma sensação de proximidade e até de carinho. Falando em apelidos, alguém já parou pra pensar no quanto eles são inspirados ou influenciados pelo mundo animal? É tatu, cavalo, tuiuiú, baleia, tartaruga, cachorro, anta, etc. É uma pena que alguns deles sejam equivocadamente usados como xingamento ou sinônimo de preconceito. O que demonstra que a grande criatividade do povo brasileiro é sempre ofuscada pela pequenez e pela pobreza de espírito de poucos que, cá entre nós, perdem para os simpáticos bichos, sejam eles grandes ou pequenos.

Grande é o tempo em que os negros são legalmente pessoas livres no Brasil. Passa longe dos cem anos. E já está mais do que na hora de tirarmos as teias de aranha da cabeça pra viver como iguais que todos somos. E para isso basta respeitar as diferenças de etnia, cor, sexo, religião, time, prato predileto, cor de batom, música e todos os outros eteceteras que temos direito como seres humanos e cidadãos.

Rosí Czepula Meassi é jornalista

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